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Seitas, uma «oportunidade» de nova evangelização


Segundo o diretor do «Dicionário Enciclopédico das Seitas»


BURGOS, quarta-feira, 31 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Ninguém gosta de dizer que é um «sectário», e contudo, existem mais de 20.000 grupos qualificados como «seita», segundo o Informe do especialista norte-americano Gordon Melton.

Na Espanha se acaba de publicar a quarta edição do «Dicionário Enciclopédico das Seitas» a cargo de Manuel Guerra, consultor da Comissão Episcopal de Relações Interconfessionais da Conferência Episcopal Espanhola.

A enciclopédia tem 1098 páginas e está publicada pela editora Biblioteca de Autores Cristãos (BAC). Na obra aparecem dispostas alfabeticamente as seitas religiosas, mágicas ou ideológicas, assim como biografias dos fundadores.

«Além de ser sinal e desafio, ou precisamente por sê-lo, as seitas devem ser um “Kairós” ou “oportunidade” de evangelização nova e renovada», explica Guerra a Zenit.

O autor, que conhece sânscrito e é membro da Sociedade Espanhola de Ciências da Religião, adverte que ante o auge das seitas, «seria desastroso cair na tentação de pensar que os males vêm só ou sobretudo de fora, que os males são os outros».

Neste sentido, Guerra, catedrático na Faculdade de Teologia do norte da Espanha, apela a uma vitalização da vida cristã.

--Dentro de pouco se celebrará no Brasil a Assembléia Geral do Episcopado Latino-Americano (CELAM). Um de seus pontos são as seitas. O que poderia aconselhar, como especialista, à Igreja na América sobre este tema?

--Guerra: Os especialistas da América Latina em seitas conhecem melhor que eu sua situação. Há pouco mais de um ano existe a Rede Ibero-americana de Estudo das Seitas/Rede Ibero-Americana de Estudo das Seitas (RIES), integrada até agora por mais de trinta especialistas de todos os países de língua espanhola e portuguesa.

Já publicou uma dúzia de números do boletim eletrônico Info-(RIES), que se envia gratuitamente a mais de 4000 pessoas, e logo terá um site, que cremos necessária para dar informação sobre as seitas em espanhol.

Não obstante, atrevo-me a recordar o óbvio. Seria desastroso cair na tentação de pensar que os males vêm só ou sobretudo de fora, que os males são os outros.

Quando a população começa a estar afetada por um mal epidêmico, deve vacinar-se, ou seja, receber a informação adequada sobre os vírus sectários, a fim de não se expor aos focos de infecção por ignorância.

Também é preciso robustecer os suportes da vida e espiritualidade cristãs, isso é, a formação doutrinal (bíblica, dogmática, moral, litúrgica, social), a vibração interior (pessoas de oração e que fazem oração), o verdadeiro dinamismo apostólico, que é o transbordamento da santidade pessoal, da união com Jesus Cristo após um encontro pessoal com Ele.

Como ponto de partida, desterrar a atitude interior meramente passiva ou receptiva, promovendo a maturação do sentido «crítico», ou seja, escutar e ensinar a escutar os demais e o rádio «criticamente», ler a imprensa, ver a televisão e o cinema «criticamente», ou seja, de acordo com um «critério», que, para os católicos, é o da razão iluminada pela fé ou revelação divina, interpretada à luz do Magistério da Igreja.

Seria decisivo e oportuno chegar a um acordo sobre as marcas que definem uma seita.

Na América Latina se chamam «seitas» também os incontáveis grupos do movimento evangélico, assim como a suas duas correntes caudalosas (o pentecostalismo e o fundamentalismo protestante), apesar de que a maioria de seus grupos seja cristão.

Se os católicos chamam seitas os cristãos-protestantes e estes (também os há) à Igreja Católica, o que é e o que não é seita? Pois, parodiando Calderón de la Barca, «as seitas, seitas são».

Também elaborar uma série de normas pastorais práticas. Entre elas, por exemplo, não ceder os locais de centros católicos (colégios, casas de espiritualidade, etc.) nem às seitas nem aos chamados Métodos do Potencial Humano (MPH).

Fez-se e segue fazendo-se apesar de ser uma manipulação camaleônica por tática do proselitismo.

É um recurso para vencer a resistência inicial dos possíveis assistentes e sobretudo -- se são menores de idade -- a de seus pais ou tutores.

Estes correm o risco de concluir que o conteúdo das conferências e dias de retiro sectários é compatível com a fé e a moral cristãs simplesmente do local onde se tem.

--Em teoria ninguém aceita que pertence a uma seita. Você se encontrou alguma vez com pessoas que lhe digam: «sim, somos adeptos de uma seita»?

--Guerra: De entrada, ninguém reconhece pertencer a uma seita nem lhe agrada ser acusado de sectarismo.

A palavra «seita» se carregou de conotações tão pejorativas que se está convertendo em um termo tabu.

Mas pode-se ser condenado por suas ações más, se o são, e com provas demonstrativas de sua culpabilidade, jamais por um nome, como por exemplo sucedeu com o termo «cristão» nos primeiros séculos da Igreja, e como sucede em nossos dias com o termo «seita».

Não ouvi ninguém dizer que pertence a uma seita neste sentido pejorativo da palavra, que é o vulgar e geralmente também o dado pelos meios de comunicação social.

Mas, das 20.000 seitas informatizadas por Gordon Melton no ano 1995 (agora serão mais), só umas 200 são «destrutivas», ou seja, capazes de matar seus adeptos ou a quem se opõe a elas. É uma injustiça e calúnia grave estender a 99% o que só corresponde a 1%.

Desejo, espero e peço que o termo «seita» deixe de ser satanizado em muito menos tempo que o termo «cristão». Ao contrário, quando se explica o que é seita em sua aceitação técnica, mais de um adepto me reconheceu sê-lo.

--Transcorridos sete anos desde sua aparição, já se está esgotando a quarta edição de seu volumoso «Dicionário enciclopédico das seitas» (BAC, Madri): a que se deve o interesse por todo o sectário?

--Guerra: O sentido religioso é co-natural ao ser humano. O homem «não tem, consiste em religião» (Xavier Zubiri), é «religião» ou religação com relação ao divino.

Se não crê em Deus, talhará deuses ou ídolos à sua medida (Fiodor Dostoievski). Durante o século XX, ventos furacões ideológicos, bélicos, etc., sacudiram a árvore corpulenta e em parte envelhecida das religiões tradicionais, a cristã no Ocidente.

Provocaram a queda de ramos com ou sem fruto e sementes. Muitas delas enraizaram, originando não poucas seitas de natureza similar à de sua respectiva religião: hindus, budistas, taoístas, islâmicos, protestantes, etc.

Acrescenta-se o relativismo, o subjetivismo e o antropocentrismo que caracterizam a Modernidade e nossos dias.

Também é indiscutível que uma pessoa de personalidade profunda, tanto de sinal positivo como negativo, tende a aglutinar em torno de si e de sua doutrina a um grupo de indivíduos, capazes de sobreviver após a morte do iniciador, convertidos em «adeptos» por não dizer «adictos» à sua figura e recordação.

--Que palavras acrescentou em seu apêndice?

--Guerra: No Apêndice da 4ª edição (pág. 1007 e seguintes), além da matização de algumas frases e da atualização dos dados estatísticos, acrescentei 114 entradas-palavras, que fazem referência a seitas novas ou a realidades relacionadas com elas, sem contar as 30 organizações informativas e de atenção aos membros das seitas e a seus familiares.

Sete já existentes foram notavelmente ampliadas. Uma destas: «maçonaria» o é muito mais em meu livro «A trama maçônica» (Styria, Barcelona 444 páginas). Em seus dois meses de existência alcançou já a quarta edição.

--Crê que as seitas estão aumentando, ou é hoje a hora das grandes religiões?

--Guerra: Fragmentar-se, dividir-se resulta fácil e até cômodo, ainda que não deixe de ser traumático às vezes. Não posso precisar se está aumentando o número, tanto das seitas como de seus membros.

Ao contrário, é evidente o aumento dos chamados Métodos do Potencial Humano (MPH): Meditação transcendental, Rei-ki, Taichi (chuan), yoga, zen, Dianética, Método Silva de Controle Mental, Associação Latino-Americana de Desenvolvimento Humano, Sahaja Yoga, Energia Humana e Universal, etc.

Segundo eles, são procedimentos psicotécnicos para o pleno desenvolvimento das forças ocultas da mente humana.

Um cristão pode praticá-los enquanto psicotécnica, mas consciente de que as técnicas costumam ser caminhos para chegar a uma meta religiosa ou ideológica não cristã. Por tática proselitista esta se mantém oculta, ao menos durante os primeiros passos ou sessões.

É triste comprovar que não poucos católicos, especialmente mulheres, dedicam várias horas semanais à prática dos Movimentos do Potencial Humano, mas dizem não ter tempo para fazer um momento diário de oração cristã.

Certamente agora, uma vez passado o turbilhão inicial e a fascinação do novo e desconhecido, está surgindo «a hora das grandes religiões», ao menos por reação ante tanta superficialidade, subjetivismo e sentimentalismo.

As seitas são um dos sinais de nosso tempo e um desafio pastoral para a Igreja. Logo, devemos perguntar-nos: o que Deus está nos dizendo por meio das seitas?; e como São Paulo, perguntar a Jesus Cristo: «O que devo fazer, Senhor?» (Atos 22, 9).

Mas, além de ser sinal e desafio, ou precisamente por sê-lo, as seitas devem ser um «kairós», uma «oportunidade» de evangelização nova e renovada (João Paulo II). Pois «a existência das seitas é até conveniente» (1 Cor 11, 19), com tal que nos leve a seu estudo, assim como ao esmero no conhecimento dos ensinamentos de Cristo e na união com Ele, comenta Santo Agostinho.


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