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Mensagem de Páscoa


Jesus ressuscitado

Ressurexit, Alleluia !

A Páscoa para os congregados marianos possui um sentido especial de vitória, de sublimação.

É neste dia que vemos que, mesmo sendo a maior festa cristã, é a festa que somente existiu por ser a Bem-aventurada Virgem Maria uma cooperadora.

Cristo devia vir ao Mundo, padecer, ser morto e depois, ressuscitando, abrir as portas do Céu para todos os justos. Todo o Evangelho, toda a Escritura, tem seu ponto principal na Ressurreição do Senhor.

E, para que tudo isso pudesse acontecer, a figura quase despercebida da Virgem teve papel preponderante: se Ela não desse o “sim”, nada disso poderia acontecer na época que aconteceu.

Um exemplo – como sempre Ela nos é – para nós, a “prole santa”, os congregados de Maria.

Sabemos agir quando Deus nos pede ? Sabemos nos colocar em Sua mão ? As leituras do Tríduo Sacro colocam em relevo especialmente isso: quando Israel escutou o Senhor e colocou em prática Seus mandamentos, prosperou; quando se afastou dos preceitos divinos, seus inimigos a oprimiram. Deus nos mostra, usando das aparências e transitoriedades deste Mundo, o que deseja de nós.

Nós, congregados de Maria, devemos sempre “sentir com a Igreja” - sentire cum Ecclesiam – e ainda mais nestes tempos que nossa Fé e a Igreja de Cristo são atacadas. Pois, o Santo Padre está sempre sendo distorcido em suas palavras, a Liturgia é desobedecida, os teores da bioética são deturpados. Devemos nos abster, nos calar ? Evidente que não. Devemos sentir com a Igreja. Pensar como ela pensa. Agir da forma que os sucessores dos Apóstolos nos orientam. Somente assim seremos “cristãos com sinal mais” como devemos ser, e influenciar positivamente aos que nos rodeiam, sendo para eles suporte para suas vidas de Fé.

Prometemos em nossa Consagração servir a Virgem Maria. E também a servimos fazendo com que a Igreja do seu Filho seja exaltada entre as nações, como a Jerusalém nos Salmos. Milhares de pessoas esperam nosso testemunho – o meu, o seu – para que possam ter finalmente aquilo que anseiam: o encontro com o Ressuscitado.

A Páscoa não é apenas uma data. Para nós, católicos romanos, é todo um Tempo Litúrgico. Durando 50 dias, a sua primeira semana é a Semana Pascal, que termina no Domingo seguinte ao da Páscoa, chamado de Domingo “in albis”, i.é., o “Domingo Branco”, quando os batizados no Sábado Santo compareciam com suas vestes brancas na Santa Missa. Na recitação do Pequeno Ofício da Imaculada, os congregados marianos dão “aleluia” ao final do “Glória”. Rezam o “Rainha dos Céus” de pé em substituição ao “Angelus”. O altar da Congregação sempre é ornado com flores, sinal de alegria.

Que saibamos agir prontamente quando Deus nos pede, à imitação da Virgem Maria.

Salve, Maria !

Alleluia ! Alleluia !

 

Alexandre Martins, cm.

Presidente

 
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MENSAGEM DE PÁSCOA DA CNBB
sábado: 07 de abril de 2007

Jesus Cristo ressuscitou! Está vivo!

 

         “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou!” (Lc 24, 5b-6). Três dias após a morte de Jesus, algumas mulheres foram ao seu túmulo, ouviram este anúncio e se tornaram mensageiras dessa boa notícia.

Também hoje a Igreja testemunha e anuncia, como fez através dos séculos: Jesus Cristo, morto na cruz, ressuscitou, está vivo e presente no meio de nós! Por infinita condescendência para conosco, Deus tornou-se próximo de nós e manifestou-nos amor sem medida, iluminou e deu sentido novo à vida através da ressurreição de Jesus.

A Páscoa, passagem das trevas para a luz, da morte para a vida, empenha-nos decididamente na superação dos sinais de morte ainda presentes na cultura e na convivência humana. O anúncio pascal traz a certeza de que a injustiça e o egoísmo, a violência e o ódio não terão a última palavra sobre a existência.

A Páscoa faz-nos abraçar a defesa da vida humana, em todas as suas fases, e da natureza, ambiente da vida, dom do Criador. O cuidado da Terra, nossa casa comum, e o zelo pela sua capacidade de acolher e abrigar a vida são cada vez mais urgentes e requerem o esforço solidário de todos; essas atitudes decorrem do respeito a Deus criador e amigo da vida.

Não é belo, não é coerente com nossa fé, não é justo com o próximo promover a violência, a cultura da morte, o desprezo à obra de Deus e à vida de nossos semelhantes. A ressurreição de Jesus Cristo revela que Deus está do lado da vida; por isso, somos convocados a estar desse lado também. 

Ressuscitou! Não está mais entre os mortos! O amor de Deus, manifestado a nós na ressurreição de seu Filho Jesus Cristo, alimenta a alegria e a esperança;  ao mesmo tempo, faz-nos participar da edificação da sociedade, segundo os critérios da verdade, da justiça e da solidariedade. A Páscoa de Jesus é sinal da vitória possível sobre a morte e todos os males.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ao formular votos de feliz e abençoada Páscoa, convida todos a abraçarem, de maneira decidida, a causa da vida.

Jesus Cristo, que passou da morte para a vida, fortifique nossa esperança. O Deus da vida abençoe a todos.

Brasília, Páscoa de 2007

                             

 

                                                       

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

Arcebispo de São Salvador da Bahia

Presidente da CNBB

Dom Antônio Celso de Queirós

Bispo da Catanduva – SP

Vice-Presidente da CNBB

 

Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo eleito de São Paulo

Secretário-Geral da CNBB

 
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Meditações da Via Crucis de Sexta-Feira Santa no Coliseu

Era o final de uma manhã de primavera entre os anos 30 e 33 da nossa época. Numa estrada de Jerusalém – que nos séculos sucessivos receberia o nome emblemático de «Via Dolorosa» - acontecia um pequeno cortejo: um condenado à morte, escoltado por uma divisão do exército romano, se encaminhava, trazendo o patibulum, ou seja, o braço transversal da cruz cuja haste principal já estava colocada no alto, entre as pedras de um pequeno promontório rochoso chamado em aramaico Gólgota e em latim Calvário, isto é, «crânio».
Esta era a última etapa de uma história conhecida por todos, em cujo centro se destaca a figura de Jesus Cristo, o homem crucificado e humilhado e o Senhor ressuscitado e glorioso. Uma história iniciada no silêncio profundo da noite precedente, junto das oliveiras de um jardim denominado Getsémani, isto é «lagar para as azeitonas». Uma história que se desenrolou de modo acelerado nos palácios do poder religioso e político e que se concluiu por uma condenação à pena capital. Até mesmo a sepultura, oferecida generosamente por um proprietário chamado José de Arimateia, que não teria concluído a vicissitude daquele condenado, como aconteceu para tantos corpos martirizados no cruel suplício da crucifixão, destinado pelos romanos ao julgamento dos revolucionários e dos escravos.
Teria havido uma etapa posterior, surpreendente e inesperada: aquele condenado, Jesus de Nazaré, revelou de modo fulgurante uma outra sua natureza sob o perfil do seu rosto e do seu corpo de homem, o ser Filho de Deus. A cruz e a sepultura não foram o destino final daquela história, mas sim a luz da sua ressurreição e da sua glória. Como cantaria poucos anos depois o apóstolo Paulo, aquele que se despojou do seu poder, tornando-se impotente e fraco como os homens e humilhando-se até à morte infame por crucifixão, foi exaltado pelo Pai divino que o tinha constituído Senhor da terra e do céu, da história e da eternidade (cf. Carta aos Filipenses 2, 6-11).
Durante séculos os cristãos desejaram percorrer novamente as etapas dessa Via Crucis, um itinerário rumo à colina da crucificação mas com o olhar voltado para a última meta, a luz pascal. Fizeram-no como peregrinos naquela mesma estrada de Jerusalém, mas igualmente nas suas cidades, nas suas igrejas e nas suas casas. Durante séculos escritores e artistas, famosos ou desconhecidos procuraram fazer reviver diante dos olhos estarrecidos e comovidos dos fiéis, as etapas ou «estações», verdadeiras pausas meditativas no caminho para o Gólgota. Surgiram assim imagens ora poderosas, ora simples, altivas e populares, dramáticas e ingênuas.
Também em Roma, guiada pelo seu Bispo, o Papa Bento XVI, com toda a cristandade presente no mundo unida ao seu pastor universal, em cada Sexta-feira Santa realiza-se aquela viagem do espírito seguindo as pegadas de Jesus Cristo.
Este ano, as reflexões – de modo narrativo-meditativo –, destinadas a proclamar em cada parada orante, seguindo a trama da narração da Paixão segundo o Evangelista Lucas, serão propostas por um biblista, Mons. Gianfranco Ravasi, Prefeito da Biblioteca-Pinacoteca Ambrosiana de Milão, instituição cultural fundada há quatro séculos pelo Cardeal Federico Borromeo, Arcebispo daquela cidade e primo de São Carlos, o qual teve, há um século atrás, entre os seus Prefeitos Achille Ratti, o futuro Papa Pio XI.
Iniciemos agora, ao longo deste itinerário na oração, não por uma simples memória histórica de um evento passado e de um defunto, mas, para viver a realidade áspera e crua de um acontecimento aberto à esperança, à alegria, à salvação. Connosco, caminharão talvez aqueles que ainda estão na busca, progredindo na inquietude das suas interrogações. E enquanto seguirmos, de etapa em etapa, este caminho de dor e de luz, ressoarão as palavras vibrantes do apóstolo Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Mas sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Cor 15, 54-55.57).
Irmãos e irmãs,
As sombras noturnas desceram sobre Roma
como naquela noite sobre as casas e jardins de Jerusalém.
Também nós nos aproximaremos das oliveiras do Getsémani
e começaremos a seguir os passos de Jesus de Nazaré
nas últimas horas da sua vida terrena.
Será uma viagem na dor, na solidão, na crueldade,
no mal e na morte.
Mas, será igualmente um percurso na fé, na esperança e no amor,
pois a sepultura da última etapa do nosso caminho
não permanecerá selada para sempre.
Passadas as sombras,
na alvorada da Páscoa, levantar-se-á a luz da alegria,
o silêncio será substituído pela palavra de vida,
à morte sucederá a glória da ressurreição.
Rezemos, portanto,
entrelaçando as nossas palavras
com aquelas de uma antiga voz do Oriente cristão.
Senhor Jesus
concedei-nos as lágrimas que no momento não possuímos,
para lavar os nossos pecados.
Dai-nos a coragem de suplicar a vossa misericórdia.
No dia do último juízo,
arrancai as páginas que enumeram os nossos pecados
e fazei que não existam mais. (1) [Nil Sorkij (1433-1580), da Orazione Penitenziale.]
Senhor Jesus,
vós repetis também para nós, nesta noite,
as palavras que um dia dissestes a Pedro:
«Segue-me».
Obedecendo ao vosso convite,
queremos seguir-vos, passo a passo,
no caminho da vossa Paixão,
para também nós aprendermos
a pensar segundo Deus
e não segundo os homens.
Amém.
PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus no Horto das Oliveiras
Quando o véu das sombras desce sobre Jerusalém, as oliveiras do Getsémani parecem-nos reconduzir, ainda hoje, com o sussurrar das suas folhas, àquela noite de sofrimento e de oração vivida por Jesus. Ele se destaca solitário, no centro da cena, ajoelhado no chão daquele jardim. Como cada pessoa que está diante da morte, também Cristo se sente afligido pela angústia; aliás, a palavra originária que o evangelista Lucas utiliza é «agonia», ou seja, luta. Então, a oração de Jesus é dramática, tensa como num combate, e o suor estriado de sangue que se escorre pelo seu rosto é sinal de um tormento áspero e duro. O grito é lançado para o alto, em direção ao Pai que parece misterioso e mudo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice», o cálice da dor e da morte. Também um dos grandes Pais de Israel, Jacó, em uma noite escura na margem de um afluente do Jordão tinha encontrado Deus como uma pessoa misteriosa, que «lutara com ele até o surgir da aurora»(2). Rezar em tempo de prova é uma experiência que perturba corpo e alma e também Jesus, nas trevas daquela noite, «oferece orações e súplicas com fortes gritos e lágrimas àquele que pode libertá-lo da morte»(3).
* * *
No Cristo do Getsémani, em luta com a angústia, reencontramo-nos a nós mesmos quando atravessamos a noite da dor lancinante, da solidão dos amigos, do silêncio de Deus. É por isso que Jesus – como foi dito - «estará em agonia até o fim dos tempos: não é necessário dormir até àquele momento pois ele procura companhia e conforto» (4), como todo sofredor da terra. Nele descobrimos também o nosso rosto, quando é regado pelas lágrimas e é marcado pela desolação. Mas a luta de Jesus não chega à tentação da rendição desesperada, mas à profissão de confiança no Pai e no seu misterioso desígnio. São as palavras do «Pai nosso» que ele repropõe naquela hora amarga: «Orai para que não entreis... não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». E eis que então, aparece o anjo da consolação, do apoio e do conforto que auxilia Jesus e a nós a continuar até o final o nosso caminho.
SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus, traído por Judas, é preso
Entre as oliveiras do Getsémani, imerso nas trevas, aproxima-se agora uma pequena multidão: a guiá-la, Judas «um dos Doze», um discípulo de Jesus. Na narrativa de Lucas, ele não pronuncia sequer uma palavra, é apenas uma gélida presença. Parece até que não consegue aproximar-se completamente do rosto de Jesus para beijá-lo, interrompido pela única voz que ressoa, a de Cristo: «Judas, com um beijo entregas o Filho do homem?». São palavras dolentes, mas firmes que revelam o emaranhado maligno que se aninha no coração agitado e endurecido do discípulo, talvez iludido e desiludido e, depois, desesperado.
Aquela traição e aquele beijo tornaram-se, ao longo dos séculos, o símbolo de todas as infidelidades, apostasias e enganos. Cristo, portanto, encontra uma outra prova, a da traição que gera abandono e isolamento. Não é a solidão a ele cara quando se retirava nos montes para rezar, não é a solidão interior, fonte de paz e de tranquilidade, pois, com ela, se inclina sobre o mistério da alma e de Deus. É, porém, a áspera experiência de tantas pessoas que mesmo neste momento que nos vê reunidos, como em outros momentos do dia, estão sozinhas em um quarto, diante de uma parede vazia ou de um telefone mudo, esquecidas por todos porque são idosos, doentes, estrangeiros ou desconhecidos. Jesus bebe com eles também este cálice que contém o veneno do abandono, da solidão, da hostilidade.
* * *
Porém, a cena do Getsémani movimenta-se: ao quadro precedente, íntimo e silencioso da oração se opõe agora, sob as oliveiras, o estrondo, o tumulto e até mesmo a violência. Jesus se ergue, sempre no centro como um ponto fixo. Ele está consciente do mal que envolve a história humana com o seu sudário de prepotência, de agressão, de brutalidade: «Esta é a vossa hora e o domínio das trevas».
Cristo não quer que os discípulos, prontos a empunhar a espada, revidem o mal com o mal, a violência com a violência. Ele tem a certeza de que o poder das trevas – aparentemente invencível e jamais satisfeita de triunfos – está destinado a ser dominado. À noite, de fato, sucederá o alvorecer, à obscuridade a luz, à traição o arrependimento, também para Judas. É por esse motivo que, não obstante tudo isso, é necessário continuar a esperar e a amar. Jesus tinha ensinado no monte das Bem-aventuranças, que para se ter um mundo novo e diferente, é necessário amar os nossos inimigos e rezar por aqueles que nos perseguem (5).
TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus é condenado pelo Sinédrio
O sol da sexta-feira santa está surgindo por detrás do monte das Oliveiras, depois de ter iluminado os vales do deserto de Judá. Os setenta e um membros do Sinédrio, a máxima instituição judaica, estão reunidos em semi-círculo ao redor de Jesus. Está para ser iniciada a audiência que compreende o costumeiro procedimento das assembleias judiciárias: a verificação da identidade, os motivos da acusação, as testemunhas. O julgamento é de natureza religiosa segundo as competências daquele tribunal, como parece também nas duas perguntas principais: «És tu o Cristo?... És tu o Filho de Deus?».
A resposta de Jesus parte de uma premissa quase desencorajada: «Se vo-lo disser, não Me acreditareis e, se vos perguntar, não Me respondereis». Ele sabe, portanto, que na cilada existe a incompreensão, a suspeita, o equívoco. Ele sente ao seu redor uma fria cortina de desconfiança e de hostilidade, ainda mais opressora pois ela está erguida contra ele pela sua própria comunidade religiosa e nacional. Já o salmista tinha sentido esta desilusão: «Se me tivesse ultrajado o inimigo, eu tolerá-lo-ia. Se contra mim se levantara quem me odeia, afastá-lo-ia. Mas tu, um homem igual a mim, meu amigo e familiar, com quem eu partilhava o conselho agradável, com quem ia à casa de Deus cheio de entusiasmo» (6).
* * *
Porém, não obstante aquela incompreensão, Jesus não hesita em proclamar o mistério que está nele e que a partir daquele momento está para ser revelado como numa epifania. Recorrendo à linguagem da Sagrada Escritura, ele se apresenta como o Filho do homem «sentado à direita do poder de Deus». É a glória messiânica, esperada por Israel, que agora se manifesta neste condenado. Aliás, é o Filho de Deus que paradoxalmente se apresenta revestido agora dos seus despojos de um acusado. A resposta de Jesus - «Eu sou» -, à primeira vista semelhante à confissão de um condenado, torna-se na realidade uma profissão solene de divindade. Para a Bíblia, de fato, «Eu sou» é o nome e apelativo do próprio Deus (7).
A imputação, que levará a uma sentença de morte, torna-se a uma revelação e assim se torna também a nossa profissão de fé no Cristo, o Filho de Deus. Aquele acusado, humilhado pela corte enfurecida, pela suntuosidade da sala, por um julgamento já selado, recorda a todos o dever do testemunho à verdade. Um testemunho de fazer ressoar até mesmo quando é forte a tentação de ocultar-se, de resignar-se, de deixar-se levar pela corrente da opinião dominante. Como declarava uma jovem judia destinada a ser morta num lager, (8) «a cada novo horror ou crime devemos opor um novo fragmento de verdade e de bondade que conquistamos em nós mesmos. Podemos sofrer, mas não devemos sucumbir».
QUARTA ESTAÇÃO
Jesus é renegado por Pedro
Retornemos àquela noite deixada para trás, entrando na sala do primeiro processo ao qual Jesus foi submetido. A obscuridade e o frio são dilacerados pelas chamas de um braseiro colocado no pátio do palácio do Sinédrio. Os funcionários em serviço e de guarda estendem as mãos em direção daquele calor; os rostos estão iluminados. E eis que se erguem três vozes, três mãos a indicar um rosto reconhecido, o de São Pedro.
A primeira é uma voz feminina. Uma criada do palácio que fixa o discípulo nos olhos e exclama: «Estavas também tu com Jesus!». Surge depois uma voz masculina: «Pertences a eles!». É ainda um homem a insistir mais tarde a mesma acusação, notando o sotaque setentrional de Pedro: «Estavas com ele!». A estas denúncias, quase num crescendo desesperado de autodefesa, o apóstolo não hesita por três vezes a perjurar: «Não conheço Jesus! Não sou um discípulo seu! Não sou aquele dizeis!». Portanto, a luz daquele braseiro ilumina, portanto, muito além do rosto de Pedro, revela uma alma mesquinha, a sua fragilidade, o egoísmo, o medo. E no entanto, algumas horas antes, ele tinha proclamado: «Mesmo que todos venham a sucumbir, eu não! Mesmo que eu tenha de morrer Contigo, não Te renegarei!» (9).
* * *
Mas esta traição não terminou, como tinha acontecido com a de Judas. Há, de fato, naquela noite um som que dilacera o silêncio de Jerusalém, mas sobretudo a consciência de Pedro: é o canto de um galo. Exatamente naquele momento Jesus estava saindo do processo judiciário que o havia condenado. Lucas descreve a troca de olhares entre Cristo e Pedro e o faz usando um verbo grego que indica o fixar profundamente um rosto. Mas, como nota o evangelista, não se trata de um homem qualquer que agora olha para o outro, é «o Senhor», cujos olhos perscrutam os corações e os rins, ou seja, o íntimo segredo de uma alma.
E dos olhos do apóstolo caem lágrimas de arrependimento. Na sua vicissitude condensam-se muitas histórias de infidelidade e de conversão, de fraqueza e de libertação. «Chorei e acreditei!»: assim, com apenas estes dois verbos, séculos depois, um convertido (10) , aproximará sua experiência à de Pedro, dando voz também a todos nós que neste dia cometemos pequenas traições, protegendo-nos por detrás de justificações mesquinhas, deixando-nos possuir por medos vis. Mas, como para o apóstolo, também para nós está aberto o caminho do encontro com o olhar de Cristo que nos confia o mesmo compromisso: também tu «uma vez convertido, fortalece os teus irmãos» (11).
QUINTA ESTAÇÃO
Jesus é julgado por Pilatos
Neste momento, Jesus encontra-se entre as insígnias imperiais, os estandartes, as águias e os pavilhões da autoridade romana, dentro de um outro palácio do poder, o do governador Pôncio Pilatos, um nome à margem e esquecido na história do Império de Roma. E, no entanto, é um nome que ressoa todos os domingos, em todo o mundo, exatamente por causa daquele processo que ora se celebra: os cristãos, de fato, no Credo proclamam que Cristo «foi crucificado sob Pôncio Pilatos». Por um lado, ele encarna à primeira vista a brutalidade repressiva, pois Lucas recorda, numa página do seu Evangelho, naquele dia em que ele não hesitou em misturar no templo o sangue judeu com o dos animais para o sacrifício (12). Com ele compara-se um outro poder obscuro e impalpável: é a força feroz das multidões, manipuladas pelas estratégias dos poderes ocultos que tramam na escuridão. O resultado está na escolha de conceder a graça a Barrabás, um rebelde homicida.
Por outro lado, porém, emerge um perfil diferente de Pilatos: ele parece representar a equidade tradicional e a imparcialidade do direito romano. Por três vezes pelo menos, Pilatos tenta propor a absolvição de Jesus por insuficiência de provas, cominando ao máximo a sanção disciplinar da flagelação. A acusa, de fato, não suportaria um sério exame processual. Como insistem todos os evangelistas, Pilatos revela, portanto, uma certa abertura de ânimo, uma disponibilidade que, porém, progressivamente se debilita e se apaga.
* * *
Sob a pressão da opinião pública, Pilatos encarna, então, uma atitudes que parecem dominar nos nossos dias: a indiferença, o desinteresse, a conveniência pessoal. Para se viver serenamente, e por vantagem própria, não se hesita em esmagar a verdade e a justiça. A imoralidade explícita gera pelo menos um estremecimento ou uma reação; esta, por sua vez, pura amoralidade que paralisa a consciência, extingue o remorso e fecha a mente. A indiferença é a morte lenta da verdadeira humanidade.
O êxito está na escolha final de Pilatos. Como diziam os antigos latinos, uma justiça hipócrita e apática se torna semelhante a uma teia de aranha na qual se prendem e morrem os mosquitos mas os grandes pássaros as rasgam com a força do seu vôo. Jesus, que é um dos pequenos da terra, sem poder emitir uma palavra, é sufocado por esta teia. E como muitas vezes fazemos, Pilatos olha para o outro lado, lava as mãos e como álibi lança – segundo o evangelista João (13) - a eterna pergunta típica de qualquer cepticismo e de qualquer relativismo ético: «E o que é a verdade?».
SEXTA ESTAÇÃO
Jesus é flagelado e coroado de espinhos
Um dia, enquanto caminhava pelo vale do Jordão, não distante de Jericó, Jesus parou e dirigiu aos Doze palavras fervorosas e incompreensíveis aos seus ouvidos: «Olhai, subimos agora a Jerusalém e cumprir-se-á tudo quanto foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem. Vai ser entregue aos gentios, vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; e, depois de O açoitarem, dar-Lhe-hão a morte»(14). Mas aquelas palavras resolvem o seu enigma: no pátio do pretório, a sede jerosolimitana do governador romano, inicia o lúgubre ritual da tortura, acompanhado de fora do palácio pela multidão que espera o espetáculo do cortejo da execução capital.
Naquele espaço proibido para o público se consuma um gesto que será repetido nos séculos de mil formas sádicas e perversas, na obscuridade de tantas prisões. Jesus não é somente açoitado mas também é humilhado. Aliás, o evangelista Lucas para definir aqueles insultos usa o verbo «blasfemar», revelando de modo alusivo o significado profundo daquele desabafo dos guardas enfurecidos sobre a vítima. Mas na martirizada carne de Cristo se associa igualmente uma afronta à sua dignidade pessoal através de uma farsa macabra.
* * *
É o evangelista João quem recorda aquele ato sarcástico, ritmado sobre um jogo popular, o do rei do ridículo. Eis, de facto, uma coroa cujos esplendores são ramos de espinhos; a púrpura real é substituída por um manto vermelho; e, finalmente, a saudação imperial, «Ave, César!». Porém, em dissolução a este escárnio, se entrevê um sinal glorioso: sim, Jesus è humilhado como rei do ridículo; mas, na realidade ele é o verdadeiro soberano da história.
Quando finalmente revelará a sua realeza – como nos recorda um outro evangelista, Mateus (15) - ele condenará todos os torturadores e os opressores e introduzirá na glória não apenas as vítimas mas também todos os que visitaram quem estava no cárcere, cuidaram dos feridos e dos sofredores, sustentaram os famintos, os sedentos e os perseguidos. Agora, porém, o rosto transfigurado mostrado no Tabor (16) está desfigurado; aquele que è «irradiação da glória divina» (17) está obscurecido e humilhado; como tinha anunciado Isaias, o Servo messiânico do Senhor tem o dorso sulcado pelos flagelos, a barba arrancada das faces, o rosto regado de escarros (18). Nele, que é o Deus da glória, está presente também a nossa humanidade dolente; nele, que é o Senhor da história, se revela a vulnerabilidade das criaturas; nele, que é o Criador do mundo, se condensa a dor de todos os seres vivos.
SÉTIMA ESTAÇÃO
Jesus carrega a cruz
Nos pátios do palácio imperial terminou a festa macabra; caem as vestes daquele ridículo hábito real, escancara-se o portal. Eis que avança com suas vestes normais, com a sua túnica «toda tecida de alto a baixo, não tinha costura» (19). Nas suas costas, apóia a trave horizontal, destinada a acolher os seus braços quando ela for fixada no poste da crucifixão. A sua presença é muda, suas pegadas ensanguentam aquela estrada que ainda hoje traz o nome de «Via dolorosa», em Jerusalém.
Inicia-se agora, em sentido estricto a Via Crucis, aquele percurso que se repete esta noite e que se encaminha para a colina das execuções capitais, fora dos muros da cidade santa. Jesus avança e vacila sob aquele peso e pela fraqueza do seu corpo ferido. A tradição desejou simbolicamente assinalar aquele itinerário com três quedas. Nelas, há o episódio infinito de tantas mulheres e homens prostrados na miséria ou na fome: são crianças magras, idosos enfraquecidos, pobres debilitados de cujas veias foi tirada toda energia.
Naquelas quedas há ainda a história de todas as pessoas desoladas na alma e infelizes, ignoradas pelo frenesi e pela distração das que passam ao lado. Em Cristo curvado sob a cruz está a humanidade doente e fraca que, como afirmava o profeta Isaías (20), «Desolada, falarás do solo, as tuas palavras virão apagadas pelo pó, a tua voz sairá da terra como a de um fantasma, a tua voz levantar-se-á do pó como um murmúrio».
* * *
Também hoje, como ontem, ao redor de Jesus que se ergue e prossegue carregando o lenho da cruz, continua a vida quotidiana do caminho, assinalada pelos negócios, pelas monstras cintilantes, pela procura do prazer. E, no entanto, à sua volta não há apenas hostilidade ou indiferença. Nos seus passos movem-se hoje aqueles que escolheram seguí-Lo. Esses ouviram o apelo que um dia ele tinha lançado passando pelos os campos da Galiléia: «Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me» (21). «Saiamos, então, do campo para ir ter com ele fora do acampamento, levando o Seu opróbrio» (22). No final da Via dolorosa não há apenas a colina da morte ou o abismo do sepulcro, mas igualmente o monte da gloriosa ascensão e da luz.
OITAVA ESTAÇÃO
Jesus é ajudado pelo Cireneu a carregar a Cruz
Voltava do campo, talvez depois de algumas horas de trabalho. Esperavam-no em casa os preparativos do dia festivo: ao pôr-do-sol, de facto, seria aberta a sagrada fronteira do sábado, iniciado com o despontar das primeiras estrelas no céu. Simão era o seu nome; ele era um judeu proveniente da África, de Cirene, cidade situada no litoral líbio e que hospedava uma densa comunidade da Diáspora judaica (23). Uma dura ordem da divisão romana que escolta Jesus o detém e o obriga a carregar, por um trecho de caminho, o patíbulo daquele condenado enfraquecido.
Simão tinha passado por ali por acaso; não sabia que aquele encontro seria extraordinário. Como está escrito, (24) “quantos homens nos séculos teriam desejado estar ali, no seu lugar, ter passado por ali exatamente naquele momento. Mas, era tarde demais, era ele quem passou e ele, ao longo dos séculos não teria jamais cedido o seu lugar a algum outro”. Paulo apóstolo, tinha sido interceptado, “agarrado e conquistado” (25) por Cristo na estrada de Damasco. É por isso que depois retomou de Isaías as surpreendentes palavras de Deus: «Fui encontrado pelos que não Me procuravam; manifestei-Me àqueles que não perguntavam por Mim» (26).
* * *
Deus está em emboscada nos caminhos da nossa existência quotidiana. É ele que às vezes bate nas nossas portas pedindo um lugar em nossas mesas para jantar conosco (27). Até mesmo um imprevisto, como que aconteceu na vida de Simão de Cirene, pode se tornar um dom de conversão, e isso é tão verdade que o evangelista Marcos citará os nomes dos filhos daquele homem que se tornou cristão: Alexandre e Rufo (28). O Cireneu é, assim, o emblema do misterioso abraço entre a graça divina e a atividade humana. No final o evangelista o representa como o discípulo que «leva a crua atrás de Jesus», seguindo-lhe as pegadas (29). O seu gesto, da execução forçada, transforma-se idealmente num símbolo de todos os atos de solidariedade pelos sofredores, pelos oprimidos e pelos exaustos. O Cireneu representa, assim, uma imensa fila das pessoas generosas, dos missionários, dos Samaritanos que não «se desviam» da estrada, (30) mas se inclinam sobre os miseráveis carregando-lhes sobre si para sustentá-los. Na cabeça e nos ombros de Simão, curvado sob o peso da cruz, ressoam as palavras de São Paulo: «Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo» (31).
NONA ESTAÇÃO
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
Naquela sexta-feira de primavera, no caminho que conduzia ao Gólgota, não se aglomeravam senão alguns desocupados, curiosos e pessoas hostis a Jesus. E eis um grupo de mulheres, talvez pertencentes a uma irmandade dedicada ao conforto e ao pranto ritual pelos moribundos e pelos condenados à morte. Cristo, durante a sua vida terrena, superando convenções e preconceitos, estava frequentemente circundado por mulheres e tinha conversado com elas, ouvindo os seus pequenos e grandes dramas: da febre da sogra de Pedro à tragédia da viúva de Naim, da prostituta em lágrimas ao tormento interior de Maria de Mágdala, do afeto de Marta e Maria ao sofrimento da mulher acometida de hemorragia, da jovem filha de Jairo à anciã encurvada, da nobre Joana de Cusa à viúva indigente e às figuras femininas da multidão que o seguia.
Em torno a Jesus, até à sua última hora, estreitam-se numerosas mães, filhas e irmãs. Junto dele, agora, imaginemos todas as mulheres humilhadas e violentadas, as marginalizadas e submetidas a práticas tribais indignas, às mulheres em crise e sozinhas diante da sua maternidade, mães judias e palestinas, as de todas as regiões em guerra, as viúvas ou as idosas esquecidas pelos seus filhos... É uma longa suposição de mulheres que testemunham num mundo árido e impiedoso o dom da ternura e da comoção, como fizeram pelo filho de Maria no final daquela manhã de Jerusalém. Elas nos ensinam a beleza dos sentimentos: não nos devemos envergonhar se o coração acelera suas batidas na compaixão, se por vezes afloram lágrimas dos olhos, se se sente necessidade de uma carícia e de um conforto.
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Jesus não ignora as intenções caritativas daquelas mulheres como outrora acolheu outros gestos delicados. Mas, paradoxalmente, é ele agora quem se interessa pelos iminentes sofrimentos daquelas «filhas de Jerusalém»: «Não choreis por Mim, mas por vós mesmas e pelos vossos filhos». De fato, há no horizonte um incêndio que está para abater-se sobre o povo e sobre a cidade santa, «um lenho seco» pronto para pegar fogo.
O olhar de Jesus vai em direção ao futuro julgamento divino sobre o mal, a injustiça, o ódio que estão alimentando aquela chama. Cristo se comove com a dor que está caindo sobre aquelas mães quando irromperá na história a intervenção justa de Deus. Mas as suas frementes palavras não selam um êxito desesperado pois a sua voz é a dos profetas, uma voz que não gera agonia e morte mas conversão e vida: «Buscai o Senhor e vivereis... Então a jovem executará danças alegres; jovens e velhos partilharão do júbilo comum. Converterei o seu pranto em gozo, e consolá-los-ei, passada a sua dor, e os alegrarei» (32).
DÉCIMA ESTAÇÃO
Jesus é crucificado
Era apenas uma formação rochosa denominada em aramaico Gólgota, em latim, Calvário, isto é «crânio», talvez devido à sua configuração física. Sobre aquele monte se elevam três cruzes de condenados à morte, dois «malfeitores», provavelmente revolucionários anti-romanos e Jesus. Aproximavam-se as últimas horas da vida terrena de Cristo, horas assinaladas pela dilaceração das carnes, pela desconjunção dos ossos, pela progressiva asfixia, pela desolação interior. São as horas que testemunham a plena fraternidade do Filho de Deus com o homem que padece, agoniza e morre.
Cantava um poeta (33): «O ladrão da esquerda e o ladrão da direita/ não sentiam senão os cravos nas mãos/ Cristo, porém, sentia a dor dada pela salvação/ o lado aberto, o coração trespassado/ É o coração que lhe queimava. / Um coração devorado pelo amor». Sim, porque ao redor daquele patíbulo parecia ressoar a voz de Isaias: «Mas foi castigado pelos nossos crimes, esmagado pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados pelas suas chagas [...] oferecendo a sua vida em sacrifício expiatório » (34). Os braços abertos daquele corpo martirizado querem estreitar a si todo o horizonte, abraçando a humanidade quase «como uma galinha a sua ninhada debaixo das asas» (35). De fato era esta a sua missão: «E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim» (36).
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Sob aquele corpo agonizante, desfila a multidão que quer «ver» um espetáculo macabro. É o retrato da superficialidade, da curiosidade banal, da busca de emoções fortes. Um retrato no qual se pode identificar também uma sociedade como a nossa que escolhe a provocação e o excesso quase como uma droga para excitar uma alma já entorpecida, um coração insensível, uma mente ofuscada.
Sob aquela cruz há também a crueldade pura e dura, a dos chefes e dos soldados que não conhecem piedade e conseguem profanar até mesmo o sofrimento e a morte com zombaria: «Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!». Eles não sabem que exatamente as suas palavras sarcásticas e a escrita oficial colocada sobre a cruz - «Este é o rei dos judeus» - dizem uma verdade. Certo, Jesus não desce da cruz com um espetáculo surpreendente: ele não quer adesões servis fundadas no prodigioso, mas uma fé livre e um amor autêntico. No entanto, exatamente através da derrota da sua humilhação e da impotência da morte, ele abre a porta da glória e da vida, revelando-se o verdadeiro Senhor e Rei da história.
DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus promete o seu Reino ao bom ladrão
Passam os minutos da agonia e a energia vital de Jesus crucificado lentamente se está diminuindo. Mas, naqueles momentos trágicos, ele ainda tem a força para um último ato de amor, em relação a um dos dois condenados à pena capital que estão ao lado. Entre Cristo e aquele homem transcorre um tênue diálogo, reduzido a duas frases essenciais.
Por um lado, há o apelo do malfeitor, que se tornou, na tradição, o «bom ladrão», convertido na extrema hora da sua vida: «Jesus, lembra-Te de mim quando estiveres no Teu reino!». Num certo sentido é como se o homem recitasse uma versão pessoal do «Pai nosso» e da invocação: «Venha a nós o vosso Reino!». Ele, porém, o endereça diretamente a Jesus, chamando-o pelo nome, um nome de significado iluminador naquele instante: «O Senhor salva». Há, ainda, aquele imperativo: «Lembra-Te de mim». Na linguagem bíblica este verbo tem uma força particular que não corresponde ao nosso pálido «lembrar». É uma palavra de certeza e de confiança, quase querendo dizer: «Toma conta de mim, não me abandone, seja como o amigo que apóia e ampara.
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Por outro lado, eis a resposta de Jesus, brevíssima, como um sopro: «Hoje estarás Comigo no paraíso». Esta palavra «paraíso», tão rara na Sagrada Escritura que aparece apenas outras duas vezes no Novo Testamento (37), no seu significado original evoca um jardim fértil e florido. É uma imagem perfumada daquele Reino de luz e de paz que Jesus tinha anunciado na sua pregação inaugurada com os seus milagres que logo terá uma epifania gloriosa na Páscoa. É a meta do nosso caminho cansativo na história, é a plenitude da vida, é a intimidade do abraço com Deus. É o último dom que Cristo faz, exatamente através do sacrifício da sua morte que se abre à glória da ressurreição.
Nada mais disseram aqueles dois crucificados naquele dia de angústia e de dor, mas aquelas poucas palavras pronunciadas com dificuldade das suas gargantas abrasada e ecoam sempre como um sinal de confiança e de salvação para quem pecou mas também acreditou e esperou, mesmo que tenha sido no extremo limite da vida.
DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus na cruz, a Mãe e o Discípulo
Tinha começado a separar-se daquele Filho desde o dia em que, aos doze anos, ele lhe comunicara que tinha outra casa e outra missão para cumprir, em nome do seu Pai celestial. Agora, porém, chegou para Maria o momento da suprema separação. Naquela hora há a aflição de toda mãe que vê soçobrar até mesmo a lógica da natureza pela qual são as mães a morrer antes das suas criaturas. Mas o evangelista João cancela toda lágrima daquele rosto de dores, cala qualquer grito dos lábios, não prostra Maria no desespero.
Antes, há um halo de silêncio que é quebrado por uma voz que desce da cruz e do rosto torturado do Filho agonizante. É muito mais do que um momento familiar: é uma revelação que marca uma mudança na vida da Mãe. A extrema separação na morte não é estéril mas há uma fecundidade inesperada semelhante ao parto de uma mãe. Exatamente como tinha anunciado o mesmo Jesus, algumas horas antes, na última noite da sua existência terrena: «A mulher, quando está para dar a luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas depois de ter dado à luz o menino, já se não lembra mais da aflição, pelo prazer de ter vindo ao mundo um homem» (38).
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Maria volta a ser mãe: não é por acaso que nas poucas linhas desta narração evangélica por cinco vezes ressoa a palavra «mãe». Maria, portanto, é mãe e serão seus filhos todos aqueles que forem como «o discípulo amado», ou seja, todos aqueles que colocam sob o manto salvador da salvadora graça divina e que seguem a Cristo na fé e no amor.
A partir daquele momento, Maria não estará mais sozinha, tornar-se-á mãe da Igreja, um imenso povo de todas as línguas, povos e raças que nos séculos se juntarão a ela em torno à cruz de Cristo, o seu primogênito. Desde então também nós caminhamos com ela na estrada da fé, encontramo-nos com ela na casa onde sopra o Espírito de Pentecostes, nos sentamo-nos à mesa onde se parte o pão da Eucaristia e esperamos o dia em que o seu Filho voltará para nos conduzir, como ela, na eternidade da sua glória.
DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus morre na cruz
No início do nosso itinerário era o véu da noite que envolvia o Getsémani; agora é a escuridão de um eclipse que se estende como um sudário sobre o Gólgota. O «império das trevas» (39) parece, portanto, dominar a terra onde Deus morre. Sim, o Filho de Deus, por ser verdadeiramente homem e nosso irmão, deve beber também o cálice da morte, da morte que é o real bilhete de identidade de todos os filhos de Adão. É assim que Cristo « teve de assemelhar-Se em tudo aos Seus irmãos», (40) torna-se plenamente um de nós também na extrema agonia entre a vida e a morte. Uma agonia que se repete talvez nestes minutos para um homem ou uma mulher aqui em Roma e em tantas outras cidades e lugares do mundo.
Não é mais o Deus greco-romano impassível e remoto como um imperador relegado aos céus dourados do seu Olimpo. No Cristo que morre se revela ora o Deus apaixonado, enamorado pelas suas criaturas até ao ponto de aprisionar-se livremente nos seus limites de dor e de morte. É por isso que o Crucifixo é um sinal humano universal da solidão da morte e também da injustiça e do mal. Mas é igualmente um sinal divino universal de esperança pela expectativa de cada centurião, isto é, de cada pessoa inquieta e em busca.
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De fato, mesmo quando está morrendo no alto daquele patíbulo, enquanto a sua respiração se extingue Jesus não deixa de ser o Filho de Deus. Naquele momento, todos os sofrimentos e as mortes são atravessados e possuídos pela divindade, são irradiados de eternidade, neles é deposta uma semente de vida imortal, brilha um raio de luz divina.
Portanto, a morte mesmo não perdendo a sua tragicidade, revela um aspecto inesperado, tem o mesmo olhar do Pai celeste. É por isto que Jesus naquela hora extrema reza com ternura: «Pai, nas tuas mãos eu entrego o meu espírito». Àquela invocação nos associamos também nós através da voz poética e orante de uma mulher escritora (41): «Pai, teus dedos também fechem os meus olhos. / Tu que me és Pai, olha para mim como terna Mãe, / na cabeceira do seu filhinho que sonha. / Pai, olha para mim e acolhe-me nos teus braços».
DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO
Jesus é depositado no sepulcro
Envolto num lençol funerário, o «sudário», o corpo crucificado e martirizado de Jesus deslisa lentamente das mãos piedosas e amorosas de José de Arimateia no sepulcro escavado na rocha. Nas horas de silêncio que se seguirão, Cristo estará verdadeiramente como todos os homens que entram no ventre escuro da morte, da rigidez cadavérica, do fim. No entanto, já existe naquele crepúsculo de Sexta-feira Santa, um tremor. O evangelista Lucas observa que «já brilhavam as luzes do sábado», das janelas das casas de Jerusalém.
A vigília dos judeus nas suas casas se torna quase um símbolo de expectativa daquelas mulheres e daquele discípulo secreto de Jesus, José de Arimateia, e dos outros discípulos. Uma espera que agora domina com uma tonalidade nova todos os corações crentes quando se encontram diante de um sepulcro ou também quando sentem ramificar-se dentro de si a mão fria da doença ou da morte. É a espera de uma alvorada diferente, a que logo depois, passado o sábado, aparecerá diante dos nossos olhos de discípulos de Cristo.
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Naquela aurora, no caminho das sepulturas, virá ao nosso encontro o anjo e nos dirá: «Por que buscais entre os mortos Aquele que vive? Não está aqui; ressuscitou!» (42). E na estrada de regresso às nossas casas, será o Ressuscitado que se aproxima de nós, caminhando conosco, passando os nossos umbrais para ser hospedado nas nossas mesas e partir o pão conosco (43). Rezaremos portanto também nós com as palavras de fé de um trecho da mais admirável Paixão segundo São Mateus, musicada e cantada por um dos maiores músicos da humanidade: (44) «Mesmo que o meu coração esteja imerso em lágrimas porque Jesus se despede de mim, o seu testamento me dá alegria: ele deixa nas minhas mãos a sua carne e o seu sangue... Que preciosidade! Quero oferecer-te o meu coração. Desde nele, meu Salvador! Quero imergir-me em Ti! Se o mundo é pequeno demais ti, então tu deves ser unicamente para mim mais do que o mundo e mais do que o céu!».
veja na íntegra em
http://www.zenit.org/portuguese/visualizza.phtml?sid=105752

 

 
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Só a proximidade com o criador nos dá a verdadeira beleza

 

vitral da Madona

Fala um dos mais renomados nomes da arte sacra no Brasil, responsável pela capela do Papa em Aparecida.

 



APARECIDA, domingo, 1 de abril de 2007 (ZENIT.org).- «O que é que torna uma coisa bela? A natureza é bela. Mas certamente o Criador é mais belo. Então só a proximidade com o Criador é que nos dá a verdadeira beleza», afirma um artista plástico brasileiro.

Responsável pelo projeto artístico do interior da capela de Bento XVI em seu aposento no Seminário Bom Jesus em Aparecida, Cláudio Pastro, um dos mais renomados nomes da arte sacra no Brasil, conversou com Zenit sobre este projeto.

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